Bagan (3ª parte)

A alta temporada em Bagan inicia em outubro, por conseguinte, constatei que no dia 2 do mês citado tinha um volume maior de motonetas na estrada, bem como os templos estavam mais concorridos e até os restaurantes mais disputados. O motivo é que o período de monções (chuvas torrenciais), em tese, termina em setembro, logo, em outubro iniciam os voos de balão de ar quente (foi a causa de uma grande frustração, que contarei a seguir).
Myazedi Pagoda

Seguindo a minha rotina, acordei bem cedo, tomei o café e aluguei minha e-bike. O objetivo era conhecer outros templos. O que dificultou meu circuito é que não fiz uma lista com os templos imperdíveis, bem como os funcionários da recepção do hotel não sabiam dar qualquer informação útil. Tinha três guias no celular, mas acabei não lendo.

Só consegui agendar meu voo de balão para o dia 3, quando faria o check-out. Reservei duas semanas antes da viagem e já não tinha disponibilidade nos dois primeiros dias de outubro. Existem apenas três empresas que atuam no local e o preço não é barato: Oriental Ballooning Bagan, Ballons over Bagan e Golden Eagle Ballooning. Escolhi a companhia mais recente, a Golden Eagle, pois tinha escritório no hotel onde me hospedaria, o Hotel Umbra. Optei pelo pacote mais barato, 357 dólares (cerca de 1.300 reais), pago antecipadamente via Paypal, sem direito de estorno em caso de desistência. Disseram-me que os preços inflacionaram, pois há quatro anos cobravam 70 dólares pelo voo.

Seria o meu último dia inteiro em Bagan e ainda não tinha comprado minha passagem de volta, pois fiquei na expectativa de anteciparem meu voo de balão, que não aconteceu. Entrei no site para ver a disponibilidade e tremi, pois não tinha qualquer van ou ônibus no dia 3. Caminhei para recepção gelada de nervoso. Perguntei se tinha alguma van e me disseram que só havia uma vaga no horário das 16h. Meu objetivo era sair cedo, logo após o voo, pois só teria um dia em Mandalay e a saída naquele horário impossibilitaria qualquer turismo, já que chegaria tarde. Diante do meu leque de opções, tive que aceitar. Paguei e voltei para anotar o horário e lugar (eles numeram os bancos da van).

Esqueci de mencionar nos outros posts que o conjunto arquitetônico de Bagan não foi aceito pela Unesco, como patrimônio da humanidade, em razão das inúmeras restaurações realizadas com materiais que não existiam na época da construção.

Minha primeira parada foi na Mahazedi Pagoda, em Old Bagan, construída no século 13, tem uma série de terraços sobrepostos por uma cúpula cilíndrica em forma de sino. A base do templo é quadrada. Tem escadas íngremes para subir, mas estavam fechadas. Naquele local só tinha um casal com uma guia. 






A próxima parada foi na Myazedi Pagoda, construída no século 12, em Myinkaba. Do lado de fora vi muitos trabalhadores rurais (a maioria mulher), capinando e também trabalhando em uma obra. Ao entrar no templo fui abordada por algumas birmanesas para fotografar. E sempre retribuo, pois sou exótica para elas da mesma forma que são pra mim. Encontrei algumas esculturas coloridas e o buda dourado era lindo.

 


Dentro do templo, encontramos uma estela "Myazedi inscription" (protegida dentro de grades), que é o registro mais antigo em birmanês (1.113), "myazedi" significa "estupa de esmeralda". Conta a história do príncipe Yazakumar e do rei Kyansittha. A importância da inscrição Myazedi é que permitiu decifrar a língua escrita em Pyu, pois as inscrições estão em quatro idiomas: birmanês, Pyu, Mon, e Pali.




 

Em seguida, parei no templo "Manuha", que fica em Myinkaba e foi construído no ano de 1.059. Decerto é um dos templos mais exóticos em relação às esculturas apresentadas. O nome do templo está relacionado com o rei Mon que foi mantido em cativeiro pelo rei Anawrahta. 


 

 



Foi edificado para mostrar descontentamento com o período em cativeiro. O prédio foi construído em formato retangular sobreposto por um retângulo menor. As imagens de Buda no interior do prédio parecem muito grandes para o local, demonstrando posições apertadas e desconfortáveis, deixando em evidência a falta de conforto que o rei teve que suportar. Na parte traseira do templo há um Buda reclinado, que está sorrindo. O sorriso significa que apenas a morte foi a libertação para seu sofrimento.

Rei Manuha e sua esposa

Buda reclinado


Quando já estava com os olhos anuviados, segui para o meu restaurante vegetariano preferido:The moon, be kind to animals. Optei pela guacamole com um nacho bem diferente e delicioso. Queria ter tempo e apetite para experimentar todas as opções do menu.




Novamente, nas proximidades do restaurante, fui abordada por um menino, que queria uma nota do Brasil. Já tinha deixado uma nota de 2 reais na mochila, para atender esse tipo de solicitação, que comentei no primeiro post. Não sei se trata de uma coleção de moedas que todos fazem ou se alguma casa de câmbio patrocina tal interesse.


Circulei pelo mercado de artesanato que tem nas cercanias do restaurante. Não vi nada que chamasse minha atenção de verdade, exceto pela cena de um monge indo pegar dinheiro com um menino da mesma idade, não sei se vendem mais barato para os religiosos, que em tese só podem comer o que é doado.














De volta para a estrada, entrei em um caminho que não tinha qualquer pessoa e cheguei no templo "Abeyadanar", onde tive um momento maravilhoso. Foi construído em 1.102 na região de Myinkaba. Apresenta o estilo clássico com bases quadradas e varanda grande ao norte. Tem um pilar central com um assento para o Buda. É um templo rico em pinturas, mas não entrei, pois estava isolado em razão do terremoto de agosto.


Assim que deixei meus chinelos na entrada, observei que tinha um casal de vendedores de pinturas no local. Outros haviam me abordado, mas sabia que nem todos eram pintores ou dominavam qualquer técnica. Parei diante do rapaz e fiquei convencida que teria algo a aprender. Sentei no chão e conversei com o Than Thike por mais de 40 minutos.
Than segurando a minha pintura
Apesar de dizer que não compraria, me explicou todas as imagens e seus significados. Aprendi que Myanmar tem 8 dias, pois a quarta-feira é dividida. Falou sobre a técnica que usa com pedra e areia e como devo fazer se quiser tentar. No fim, perguntei se tinha algo por 5 dólares - não perguntei o preço. Ele mandou escolher a que mais gostei. Optei pelo Romeu e Julieta deles. Uma lição de vida.
Muitos templos e estupas não estão identificados, mas sempre que avistava alguma construção interessante, parava, descia da motoneta e fazia uma visita.


Giovaninha





Percorri o templo Seinnyet Ama, que foi construído em 1.085 no estilo birmanês pelas irmãs da rainha Seinnyet, Ama (a irmã mais velha) é o templo e Nyima (a irmã mais nova) é um pagode. Possui quatro entradas, mas a oriental é a principal. É possível verificar uma riqueza de detalhes na decoração, embora o interior do prédio seja totalmente escuro.






Resolvi voltar ao templo que me comoveu no dia anterior, Shwezigon, mas não tive uma experiência tão positiva. Quis deixar a e-bike próxima da entrada do templo e me deparei com um casal, que correu em minha direção e disse que só poderia estacionar debaixo de uma árvore próxima deles. Pensei na hora "um golpe". A mulher foi andando junto comigo e começou a mostrar o artesanato dela numa barraca. Diante da minha negativa, fez cara de poucos amigos. O templo estava vazio, caminhei e não fiquei muito tempo. No retorno, demorei a encontrar o meu chinelo e saí em disparada pra pegar a motoneta antes de alguém me abordar.













Naquele dia pensei em seguir ao templo em que a maioria dos turistas vão pra ver o pôr do sol, Shwesandaw Pagoda, mas parei no caminho e retornei, pois além de não haver iluminação pública, não fazia ideia de como ligar o farol pra voltar.

Aproveite o fim do dia na piscina de aborda infinita do hotel até às 19h, quando fechou. Tem um bar ao lado, com dose dupla, mas não bebi.






No dia seguinte, realizaria o tão esperado voo de balão. Avisaram-me que era pra esperar no hall do hotel às 4:30h da manhã. Acordei, tomei banho e de repente bateram na minha porta com uma notícia negativa: não haveria voo em razão do tempo. Provavelmente choveria. Admito que fiquei muito frustrada. Quase chorei. Nunca deixo um passeio para o último dia, mas, como contei anteriormente, não tinha vaga nos dias 1 e 2 em nenhuma empresa. Recebi um cartão com um pedido de desculpas e com informações sobre a devolução do dinheiro. Sabia que naquele dia teria a mais bela vista da cidade, além de poder apreciar o nascer do sol. 
Animada à 4h da manhã, esperando o horário rs
Muito chateada, não consegui dormir e choveu mesmo a partir das 5h. Torrencialmente. A brasileira que encontrei no aeroporto de Mandalay disse que não teve voo de balão nos três primeiros dias de outubro, pois ela madrugou todos os dias para fotografar e não viu. Não sei se voltarei algum dia a Bagan, portanto, talvez essa aventura jamais se realize.


Levantei da cama às 6h e tomei café. Fui na recepção, pois tinha comprado a passagem para Mandalay com saída às 16h, mas queria saber sobre a disponibilidade de uma van mais cedo. Pediram pra retornar às 7h, pois nenhum escritório estava aberto. Retornei à recepção no horário marcado e ligaram pra mim. Tinha um lugar na última fileira da van, saindo às 9:30h. Aceitei na hora. Buscaram-me e, por sorte, o rapaz me mudou de lugar, pra um assento mais confortável.


Bagan é uma cidade indescritível. O acesso ainda é difícil, mas está sendo descoberta pelos turistas aos poucos. Se tivesse que elaborar um roteiro hoje, talvez decidiria pegar um avião de Mandalay para Bagan, pois a passagem custa cerca de 65 dólares. Fiquei 4 dias (3 dias inteiros) e não vi a metade dos templos erigidos, lembrando que hoje são 2 mil, mas já foram 3 mil num passado não tão distante.
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