Basquiat: arte ou produto de marketing?


Capítulo 7

Arte ou produto de marketing?

“Desde os anos 60, a arte [...] distingue-se cada vez menos da publicidade e do marketing.”

(Antoine Compagnon, 1996, p.103)



A obra de Basquiat levanta questões sobre as relações entre marketing e o sistema de arte. Tal como Jean-Michel, muitos outros artistas foram questionados: Jeff Koons, Chris Burden, Joseph Beuys ou Julian Schnabel. E quanto a Picasso e Dalí? São produto de um marketing pessoal? James Gardner coloca que “...a pobreza da arte contemporânea é o preço que ela deve pagar pela liberdade que ela tão conspicuadamente desfruta” (1996, p.32.), sendo assim os artistas seriam vistos pela crítica não por suas qualidades artísticas: “...louvam o artista pelo seu humor, boas intenções, discernimento político, por qualquer coisa que não a mera excelência artística.” (Op. cit.). 


Em 1917 Marcel Duchamp já deixa clara a ação do Sistema de Arte como instância legitimadora, ao enviar o ready-made “Fonte” para o Salão dos Independentes, em Nova Iorque, do qual era um dos curadores. E quem legitima uma obra de arte? Provavelmente a crítica de arte, que “...considerada afim da história da arte contemporânea, liga-se aos seus métodos de avaliação, às suas práticas sociais e institucionais e à análise das relações entre arte e mercado.”[5] Os museus são hoje centros de entretenimento e quem faz isso não é a arte: “...o museu era considerado um bastião da alta cultura, enquanto que agora surge como o mandachuva da indústria cultural.”[6]

Marketing é em si um processo, mas não quer dizer que tenha intrinsecamente um significado negativo. Poderia haver arte entrelaçada ao marketing? Se partirmos da afirmação de Argan — ao falar do papel da crítica de arte —, de que: “...o que é feito com a arte é verdadeiramente arte e que, sendo arte, se associa organicamente a outras actividades, não-artísticas e até não-estéticas, inserindo-se assim no sistema geral da cultura...”[7], podemos dizer que sim.  
Warhol era gráfico publicitário das revistas Vogue e Harper´s Bazaar, trabalhava com o intuito de atingir seus alvos mercadológicos antes de “tornar-se” artista, e trabalhou com a apropriação de imagens populares, marcas, e essa reunião entre poética e estratégia é um dos responsáveis pelo corte epistemológico entre arte moderna e contemporânea. 


Jean-Michel Basquiat faz parte da história da arte, como constatamos em Klaus Honnef, que o cita como uma das figuras mais importantes da arte contemporânea, mesmo estando na categoria “Gostos não se discutem” — onde figuram, além de Basquiat, David Salle, Robert Longo, Julian Schnabel, Eric Fischl, Mike Kelley, Peter Halley e Richard Prince. Sobre ele é colocado que: “Basquiat não entrou na arte erudita graças a uma formação artística tradicional, mas veio de fora. Personifica a segunda revolução social no mundo da arte americana, depois de, já em finais dos anos 70, as mulheres terem conquistado o seu lugar na cena artística.” (1994, p. 160). 


Jean sempre foi contra uma arte feita para elite, Madonna afirmou isso no ensaio “Me, Jean-Michel, Love and Money” escrito para o “The Guardian” em uma mostra retrospectiva de Basquiat em Londres: “He was one of the few people I was truly envious of. But he didn’t know how good he was and he was plagued with insecurities. He used to say he was jealous of me because music is more accessible and it reached more people. He loathed the idea that art was appreciated by an elite group.” (Basquiat: a quick killing in art, 1998, p. 166). Parece contraditório para alguém que sempre disse que queria ser uma estrela e que com todas suas forças almejava o sucesso, desde quando grafitava estrategicamente em frente à Escola de Artes Visuais de Nova Iorque e da galeria de Mary Boone[8] — para que, mesmo que inconscientemente, seu trabalho fosse analisado.


Tendo em vista que o tema deste trabalho está relacionado à polêmica e às contradições causadas por sua obra, foram mostrados alguns dos percursos que podem ser feitos, mesmo num trabalho apresentando relação entre pontos diferentes: arte e estratégias de marketing, primitivismo e transvanguardismo, marginalidade e erudição, cultura popular e cultura erudita. O que fica evidente é a contradição dentro das abordagens, que distinguem-se uma das outras, e a visão dos autores, partindo de paradigmas não similares. Podemos também verificar que, o período pelo qual ele fez sua passagem por este mundo é em si causador de muitas divergências e gerador de pensamentos conflitantes. A questão “paradoxo” decerto oscila entre o “eu” e o “outro” quando nos deparamos com suas obras. Talvez a única certeza, a priori, é da inexistência de uma única verdade ou da verdade. Podemos dizer que temos sim inúmeras possibilidades, de vermos e sentirmos as obras de Jean-Michel Basquiat, e que ele é, de fato, um artista do seu tempo.


[5] CALABRESE, Omar. Como se lê uma obra de arte. Lisboa: Edições 70, 1993. p.10.
[6] HUYSSEN, Andreas. Escapando da amnésia - o museu como cultura de massa. p. 229.
[7] ARGAN, Giulio Carlo. Arte e crítica de arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1995. p. 130.
[8] Galerista de Nova Iorque.



BIBLIOGRAFIA



ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.


BASBAUM, Ricardo. Pintura dos anos 80: algumas observações críticas. In: ---. Arte contemporânea brasileira. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2001.

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1995.

CELANT, Germano. The marble period. In:---. Unexpressionism. New York: Rizzoli International Publications, 1988.

CHIPP, Herschel B. Theories of modern art. Berkeley: University of California Press, 1984.

COMPAGNON, Antoine. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: UFMG, 1966.

GABLIK, Suzi. The tyranny of freedom. In: ---. Has modernism failed? New York: Thames and Hudson, 1992.

GARDNER, James. Cultura ou lixo? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

GREENBERG, Clement. Arte e cultura. São Paulo: Ática, 1996.

------. A pintura moderna. In: ---. A nova arte. São Paulo: Perspectiva, 1975. p. 95-106.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Cascatas da modernidade. In: ---. A modernização dos sentidos. São Paulo: 34, 1998.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

HEARTNEY, Eleanor. Movimentos da arte moderna - pós-modernismo. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

HEBDIGE, Dick. Welcome to the terrordome: Jean-Michel Basquiat and the ‘dark’ side of hybridity. In: MARSHALL, Richard (Org.). Jean-Michel Basquiat. New York: Whitney/Abrams, 1992. p. 60-70.

HOBAN, Phoebe. Basquiat: a quick killing in art. New York: Viking Penguin, 1998.

HONNEF, Klaus. Arte contemporânea. Colônia: Taschen, 1994.

HOOKS, Bell. Altars of sacrifice: re-membering Basquiat. Art in America. jun 1993. p. 69-75.

HUGUES, Robert. De como a indústria americana de arte dos anos 80 fabricou Basquiat, o minúsculo talento que virou estrela. Bravo!, São Paulo, ano 1, nº9, p. 84-85, 1998.

HUYGUE, René. Sentido e destino da arte. Lisboa: Edições 70, s/d.

HUYSSEN, Andreas. Escapando da amnésia - o museu como cultura de massa. In: ---. Memórias do modernismo. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. p. 223-255.

KERTESS, Klaus. Brushes with beatitude. In: MARSHALL, Richard (Org.). Jean-Michel Basquiat. New York: Whitney/Abrams, 1992. p. 50-55.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

MARSHALL, Richard. Repelling ghosts. In: ---. Jean-Michel Basquiat. New York: Whitney/Abrams, 1992. p. 15-27.

McGUIGAN, Cathleen. New art, new money: the marketing of an american artist. The New York Times Magazine, New York,  10 feb.1985. p 31.

NAVARRA, Enrico (Org.). Jean-Michel Basquiat: obras sobre papéis. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1998.

------. Jean-Michel Basquiat: pinturas. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1998.

OLIVA, Achille Bonito. A arte até o ano 2000. São Paulo: Torcular, 1998.

PERRY, Gil et al. Arte moderna: práticas e debates - primitivismo, cubismo, abstração. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.

POWELL, Richard. J. Black art and culture in the 20th century. New York: Thames and Hudson, 1997.

RICARD, Rene. The radiant child. Artforum, nº24, p. 35-43, 1984.

------. World crown©: bodhisattva with clenched mudra. In: MARSHALL, Richard (Org.). Jean-Michel Basquiat. New York: Whitney/Abrams, 1992. p. 44-49.

ROCHA, Flávia. Pinturas e desenhos do artista plástico que foi o fenômeno da década de 80 são expostos em São Paulo. Bravo!, São Paulo, ano 1, nº9, p. 83, 1998.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Dentro e fora do beauborg. O Globo, Rio de Janeiro, 9 mar. 2002. Prosa & Verso. p. 2.

SANTOS, Jair Ferreira dos. A massa fria com narciso no trono. In: ---. O que é pós-moderno? São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 86-105.

TASSINARI, Alberto. A rua invade o mundo da arte. Bravo!, São Paulo, ano 1, nº9, p. 86, 1998.

------. O espaço moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

TATE, Greg. Black like B. In: MARSHALL, Richard. (Org.). Jean-Michel Basquiat. New York: Whitney/Abrams, 1992. p. 56-59.

THOMPSON, Robert Farris. Royalty, heroism, and the streets: the art of Jean-Michel Basquiat. In: MARSHALL, Richard (Org.). Jean-Michel Basquiat. New York: Whitney/Abrams, 1992. p. 28-43.

TURNER, Terence. Antropology and multiculturalism: what is anthopology that multiculturalists should be mindful of it? In: GOLDBERG, David (Org.). Multiculturalism: a critical reader. Oxford: Blackwell, 1994. p. 388-408.


Share:

0 comentários:

Translate

Instagram

Publicidade

Booking.com

Marcadores

Arquivo do blog