Os encantos de Luang Prabang (2ª parte)


No meu terceiro dia em Luang Prabang (o segundo dia inteiro), levantei cedo, por volta das 8h (nesse dia abdiquei da Ronda das Almas) e solicitei o café da manhã, que era servido na varanda. Antes de sair para passear, agendei um tour com o hotel para a famosa cachoeira Kuangsi Waterfall, na parte da tarde, saindo às 14h. O hotel oferecia bicicletas para os hóspedes, mas preferi caminhar. 

A Árvore da Vida no Wat Xieng Thong



Café da manhã: pão, ovos mexidos, salada, suco de melancia, café, pera oriental, dragon fruit, geleia e manteiga
Meu objetivo era visitar o templo Wat Xieng Thong, conhecido por um enorme mosaico da Árvore da Vida, mas fui apreciando a bela arquitetura e vegetação nas margens do rio. A distância do hotel até o templo é de 2,1 km.


Avistei um templo no fim de uma ruela, o Vat Visounnarath, e decidi entrar. Ao chegar, os olhos atentos dos pequenos monges se voltaram para mim. Optei por me aproximar aos poucos e quis saber em que estavam trabalhando. Um deles era muito simpático e explicou que se tratava de um foguete. Perguntou a minha origem, se estava gostando da cidade. 





Segui pelas margens do rio, que tem uma natureza exuberante. Muitos mamoeiros e coqueiros brotaram naquelas terras, bem como restaurantes se instalaram por ali. Barcos cruzam o rio com turistas e também moradores que habitam do outro lado. 




Anotei, no roteiro, a travessia para o outro lado do rio Nam Khan através da Bamboo bridge, uma ponte temporária feita de bambu, que é construída anualmente, pois na época de cheia dos rios ela é desmontada. É relevante ressaltar que Luang Prabang tem duas "estações": a molhada, de abril a outubro, e a seca, de novembro a março. Tendo em vista que minha visita aconteceu em outubro, a ponte não tinha sido construída, pois esperam a estiagem das chuvas e consequente baixa no nível dos rios para edificarem a ponte.









Estava chegando na extremidade da península quando avistei um templo, o Vat Pak Khan, que foi construído em 1.700 por comerciantes do Rio Mekong, que paravam na confluência entre Mekong e Nam Khan. Dessa vez observei os monges de longe. Na porta do templo tinha um pedido aos turistas, para que não perturbassem a cerimônia diária da "Ronda das Almas". Tirei o chinelo e entrei no templo, que estava vazio. Tinha paredes vermelhas contrastando com o dourado de uma grande escultura de Buda no fundo do prédio.











Na frente do templo supracitado tem um mirante com vista para o "Riverview Park", onde alguns turistas paravam para fotografar. O parque é pequeno e tranquilo, além de possibilitar a contemplação da afluência dos rios.







Finalmente cheguei no Wat Xieng Thong, que cobra 20.000 kips pelo ingresso (apenas os templos mais procurados cobram entrada). Assim que subi as escadarias, observei que era um complexo formado por três grandes construções e outras pequenas. Ao contrário dos templos que visitei anteriormente, esse tinha turistas. Um casal local posava para fotos de casamento com roupas típicas.







Também conhecido como "Golden Tree Monastery", o magnífico templo representa um símbolo de grande importância histórica. Apresenta uma elaborada árvore da vida feita com mosaicos coloridos, além de paredes esculpidas, divindades budistas raras e um carro funerário de 12 metros de altura. O templo atua como porta de entrada para Luang Prabang, pois está localizado entre os rios Mekong e Nam Khan. É o local de coroação dos reis do Laos, além de celebrar importantes festividades anuais.

A Árvore da Vida tem grande significado no Budismo, pois Buda teria alcançado a iluminação, após a meditação, sob uma figueira, conhecida como Árvore Bodhi.
 






Detalhe do carro funerário









O templo original foi criado em 1560 pelo rei Setthathirath, mas sofreu com as diversas invasões ao longo dos anos, contudo, foi remodelado em 1960. O templo mantém seu formato original. Teve apenas alguns itens adicionais à sua arquitetura. Tem um telhado em duas camadas e uma árvore da vida na parede traseira. A árvore retrata o conto da criação do templo. 

Diante da Árvore da Vida


Detalhes



"Nothing make the darkness go like the light"






Estava com fome e lembrei que, no caminho, tinha passado na frente do restaurante "Tamarind", conhecido por ser uma escola de culinária. Listei 3 restaurantes com boa avaliação no Tripadvisor, caso tivesse cansada de street food: Tamarind, Coconut Garden, L´Éléphant Vert. Obtive a informação que o estabelecimento atendia, preferencialmente, com reserva, em razão da enorme procura. Li que começavam servir às 11h e caminhei para lá. Perguntei se poderia almoçar e me disse que 3 mesas que não estavam reservadas. Sentei na varanda e pedi "ginger and lemongrass refresher" para beber e um prato chamado "Five bites". 






A bebida (12.000 kips) era incrível, feita com água, capim-limão e gengibre, servida com um canudo de bambu. O cardápio tinha outras que deveriam ser igualmente saborosas, com tamarindo, limão, entre outros ingredientes. A comida (45.000 kips) se resumia em cinco petiscos típicos do Laos servidos com sticky rice (o arroz grudento). O garçom me serviu e me ensinou como comer o arroz com a mão (limpar a mão com a toalhinha e fazer bolinhas de arroz com as palmas das mãos). Depois pedi para tirar uma foto. Não achei a comida saborosa e me esforcei para comer tudo, mas a experiência foi válida.




Voltei para o hotel e me arrumei para visitar a "Kuangsi Waterfall". O gerente do hotel marcou às 14h, o tour custava 16.000 kips. O motorista pega os passageiros no hotel, deixa na entrada do parque e marca um horário de retorno. Olhei para o relógio, que marcava 15h, e ainda não tinha me chamado no quarto. Desci as escadas e o gerente fez uma cara de assustado, pois estava óbvio que tinha esquecido da minha reserva. Pediu pra aguardar e em 20 minutos apareceu uma van, que só tinha um casal dentro. No caminho, entraram duas meninas. A que sentou ao meu lado, a Mimi, era tailandesa e conversamos por todo o percurso. 






A turista alemã, que encontrei no dia anterior, disse que não visitaria a cachoeira pois estava com a água escura. Esperava encontrar a água clara, como tinha visto na maioria das fotos. Para entrar no parque, tivemos que pagar 20.000 kips. Seguimos eu, a tailandesa e a coreana, que pouco falava inglês, mas era simpática. 






Por sorte, a tailandesa falava laosiano e então perguntou como poderíamos chegar rapidamente na cachoeira. Encontramos a grande queda e depois tentamos chegar na nascente. Existem degraus de concreto até uma parte. Subimos por 15 minutos. Pulamos para a parte de terra e escorrei levemente, mas a coreana me segurou. Decidimos voltar, mas ninguém entrou na água. O fluxo estava intenso e a água geladíssima. Não me arrisquei. No início do parque tem um pequeno zoológico com ursos, que visitamos apenas na saída. Os bichos já estavam sonolentos naquele horário.







Passei o meu e-mail e whatsapp para a Mimi, pois disse que também queria ir no bar Utopia naquela noite (um bar instalado nas margens do rio, com comida internacional, aulas de yoga e um visual zen). Contou-me que foi no dia anterior, mas falaram que é melhor visitá-lo a partir das 21h. Pedi que me mandasse uma mensagem. Voltamos para o carro, mas tivemos que esperar o casal que não estava conosco.

Retornei para o hotel e bateu uma preguiça após o banho. A consequência foi que não vi a mensagem que a Mimi tinha me mandado. Como já tinha passado da hora que combinamos (19:30), tomei banho e fui para o Night Market novamente e pela última vez. O caminho para o bar era bem escuro, não mais que o percurso até o mercado.

Naquele dia, no Mercado Noturno, comprei os últimos badulaques, como capa de almofadas pra minha mãe, tomei um suco natural (10 mil kips), novamente jantei no "self-service" (15 mil kips) e comi "coconut pancake" (5 mil kips). Mimi depois me contou que a panqueca de coco é um clássico da culinária tailandesa, mas não vi por lá. Em razão do problema no dia anterior, como contei no primeiro post (uma moto me seguiu na rua enquanto caminhava sozinha no retorno do mercado noturno), mudei a rota pra voltar o hotel. Tinha visto duas turistas usando a lanterna do celular e copiei a ideia, me iluminei no caminho e segui um homem local, mas inacreditavelmente duas motos apareceram e foram embora assim que joguei o facho de luz sobre eles.




Uma delícia!



Sou uma pessoa que têm alguns insights e deveria prestar atenção neles. Lembro-me quando fui realizar a primeira tatuagem e dois dias antes sonhei que dava queloide na cicatrização. Cancelei a tattoo e depois revolvi marcar novamente. Sim, apareceu queloide na ponta de uma das coroas. Antes de viajar, estava ansiosa pra tomar a vacina anti-rábica, pois há uma chance maior de encontrar um cão raivoso num país subdesenvolvido. Quando estava em Ubud (Bali), um rapaz teve que pagar 100 dólares por uma dose da vacina após a mordida de um macaco. E a raiva é fatal - apenas uma pessoa, nos registros da medicina, sobreviveu ao ataque de um animal com raiva.

Meu relógio despertou às 5 da manhã e saí em direção às ruas principais para ver a "Ronda das Almas" (Alms giving) pela última vez. Andei uma quadra e não vi, só ouvi quando dois cães começaram a latir, mas já estavam colados nas minhas pernas. Devo admitir que tenho um único medo na vida: de cachorro. Imagine como fiquei? Suava frio. Não tinha segurar dois cães, a casa atrás não tinha muro baixo. Qual seria a pior opção? Correr. Ainda estava escuro, todavia, avistei um menino vendendo flores, e gritei "socorro", em português mesmo  (hahaha). Corri até ele, que espantou os cachorros com um bambu. Em seguida, um cachorro mordeu o pescoço do outro! Me livrei daquele desespero. Quando voltei pro hotel, fiz uma pesquisa sobre os ataques de cachorros e muitos colocam na lista do que "evitar" na cidade.

Continuei caminhando, mas ainda com os batimentos acelerados, quando coloquei a mão na calça, procurando o celular (a câmera estava no pescoço), me dei conta que tinha sumido. Retornei até o ponto do ataque e lá estava meu celular. Persisti na minha peregrinação e vi uma senhora com a menininha de uns dois anos e fui até a criança pra cumprimentá-la, de repente os monges apareceram cantando. Foi um momento incrível, sem qualquer outro estrangeiro por perto. 





Segui até a rua principal e acompanhei a cerimônia por mais de uma hora. Tentei ficar distante para não atrapalhar e não usei flash (logo, as fotos não ficaram boas). Como relatado no "post" anterior, a "Ronda das Almas" é ritual religioso budista que ocorre todos os dias em Luang Prabang e remonta ao século 14. Cerca de 200 monges recolhem as esmolas, pois só comem alimentos doados. Os moradores saem das suas casas, se ajoelham ou ficam sentados em banquinhos, ofertando arroz, doces, frutas.







  



Aproveitei a proximidade para subir as escadas do Wat Mahathat, onde muitos dos monges entraram após a "Ronda das Almas". Foi fundado pelo rei Say Setthathirath (governador de Chiang Mai, na Tailândia) em 1548. As escadas com serpentes douradas de sete cabeças seguem o modelo de um dos templos da cidade de Chiang Mai.





Também visitei o Wat Ho Xiang, que segue o mesmo padrão arquitetônico do templo anterior, principalmente no que diz respeito aos adornos da escadaria.





Retornei ao hotel por volta das 6:30 e aguardei o café da manhã, que era servido a partir das 7 horas. Meu voo para Bangkok sairia às 16:45. Informei ao gerente sobre o horário para que programasse o meu transfer. Disse que deveria estar no hall às 14:00, mas o checkout deveria ser feito ao meio-dia.

Decidi que flanaria pela cidade para apreciar os prédios e templos até a hora do checkout. Passei pelo Museu Nacional e decidi não entrar. Observei que os hotéis instalados na rua do Night Market, a Thanon Sisavangvong, são muito agradáveis. Se algum dia voltar, espero ficar naquela localidade. 



Um belo hotel (3 Nagas). Cogitei me hospedar nele, mas custava o dobro do que fiquei. É uma boa opção para quem vai acompanhado.





Entrei no templo Wat Sene, que fica próximo ao Museu Nacional, na rua do mercado noturno. Foi construído pelo rei Kitsarath com 100.000 pedras do Rio Mekong, em 1718. Significa "templo de 100.000 tesouros". A nave interior vermelha com estênceis de ouro sobre as colunas, vigas e paredes, juntamente com a variedade de estátuas de Buda dourada e mesas no altar e a grande estátua de Buda fornecem a evidência da importância religiosa, estética e arquitetônica.








Passei pelo Wat Sop Sickharam, que tinha alguns monges no pátio, construindo objetos com bambu e papel de seda. 






Visitei o templo Vat Syrimoungkoun Xaiyaram





E, por último, o Wat Sibounheuang. O que mais me chamou a atenção nesse templo: na varanda havia dois monges tecnológicos, que utilizavam celular. Não sabia que tinham acesso à tecnologia. 





Outro templo que pede aos turistas respeito durante a cerimônia de "Alms Giving"

Na saída do templo, encontrei a Mimi, que conheci no dia anterior, caminhamos pelas ruas. Visitamos o "Morning market", que já estava fechando. Disse-me que queria almoçar. Então procuramos a refeição que queria comer. Escolheu uma barraca na rua e pediu "noodles". Tive que me despedir, pois estava na hora do checkout, entretanto, informei que retornaria para encontrá-la. Caminhei até o hotel, subi para o quarto, desci com a mala e pedi para guardá-la, juntamente com minha mochila, pois iria almoçar e voltaria no horário acordado.

Pátio de um restaurante





Quando cheguei na barraca que a tailandesa ficou almoçando, conclui que já tinha ido. Resolvi caminhar pelas margens do Mekong River e vi um restaurante rústico construído sobre as margens do rio. Entrei e pedi um macarrão vegetariano e uma limonada. O dono disse que estava sem energia elétrica, logo, teria que optar por outra bebida. Avisou-me que conseguiria fazer um smoothie (o gosto era de limonada, mas custava mais caro!). O noodles (16.000 kips) estava maravilhoso! Um simples macarrão de arroz com alguns vegetais! Fiz questão de cumprimentar a cozinheira. 



 

Para dar fim aos meus kips, passei numa barraca na rua do mercado noturno e pedi um crepe de banana com mel. Segui pro hotel e fiquei esperando sentada, literalmente. Deu 14h (a hora marcada) e nada. Apareceu um casal inglês com sinais de irritação. Deu 15h (meu voo estava marcado para 16:45). Levantei e perguntei ao gerente sobre o transfer, me disse "O aeroporto é muito perto, só tem 2 voos, não precisa se preocupar". Respirei fundo. Sou daquelas pessoas que chegam 3 horas antes do horário de embarque. Prefiro mofar no aeroporto a perder um voo. Quando o relógio marcou 15:45 (uma hora antes do meu voo), não aguentei. Já ia pedir pra chamar um transfer pago. De repente, a van estacionou, o gerente se desculpou e disse que daria tempo, caso contrário arcaria com todas as despesas. Realmente o aeroporto é muito próximo, fica a 4km da cidade. Em menos de 10 minutos estava entrando no hall para fazer o checkin. Só demorou porque tinha uma turma de 10 adolescentes na minha frente. No fim, ainda esperei muito, uma vez que o voo teve um atraso de mais de 1 hora, pois a mesma aeronave vinda de Bangkok voltaria pra origem. 


Solo traveler
Apesar da perseguição de moto e do quase-ataque de cachorros, considero Luang Prabang um destino imperdível. Fico me perguntando se não tivesse conhecido essa cidade memorável - mesmo sem um grande monumento ou ponto turístico. O tempo passa de maneira diferente, ninguém tem pressa. A cidade é turística, limpa e organizada, embora tenha um custo superior às cidades tailandesas, por exemplo, cabe no bolso de qualquer viajante.

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