Bagan, a cidade com 2 mil templos (1ª parte)

Localizada na região central de Myanmar, Bagan é uma cidade famosa por seus 2 mil templos budistas. O país é mais conhecido pelo antigo nome, Birmânia (ou Burma), mas em 1989 o regime militar decidiu que o território se chamaria Myanmar (Mianmar). Faz fronteira com Índia, Laos, Tailândia, China e Bangladesh. Sua moeda é o Kyat (1 dólar = 1.250 kyats, cotação de outubro de 2016) e, desde 2006, a capital é Yangon (Rangun).




Myanmar exerce um poderoso fascínio sobre os viajantes, uma vez que o país só abriu as portas para o turismo em 2012, portanto, muitas características culturais ainda estão preservadas. Os homens usam longyis (um tipo de saia) - hoje é possível encontrar alguns vestindo calça comprida. Mulheres e crianças usam a thanaka (cosmético feito com o pó da madeira de uma árvore abundante naquele solo) no rosto, objetivando obter proteção solar. Outro hábito interessante é que os homens mastigam uma espécie de tabaco, constituído por folhas de betel e noz de areca. Em razão de tal prática é muito comum se deparar com sorrisos e salivas vermelhas, bem como dentes danificados.



Em 2012 o cineasta Luc Besson fez uma película sobre um dos maiores ícones daquela nação: Aung San Suu Kyi. O filme "Além da liberdade" (The lady), que pode ser assistido na Netflix, conta a história da vencedora do Nobel da Paz e sua batalha pela democratização da Birmânia. Ficou 15 anos em prisão domiciliar em razão da restrição de liberdade imposta pelo regime militar, sendo libertada apenas em 2010
Orgulho nacional na parede do restaurante "The moon"


Nos post anterior contei sobre o longo caminho que percorri para chegar em Bagan. No dia seguinte, levantei às 7h, tomei meu banho e fui para apreciar o café da manhã. Escolhi o hotel pela localização, não exatamente pelos elogios na avaliação e não esperava um café da manhã tão bom. Por incrível que pareça, tinha pães e todos feitos na propriedade. A responsável pelo café da manhã estava sempre sorrindo e interagia, queria saber se eu tinha gostado de cada acepipe servido. Essa senhora foi uma pessoa que me emocionou naquele país em decorrência da sua dedicação e simpatia. Havia duas mesas, uma com comidas ocidentais e outra com as preferências orientais, pois costumam comer macarrão, arroz, frituras em geral.

Observei que Bagan é dividida em 3 "bairros": Old Bagan (templos), New Bagan (parte nova) e Nyaung-U (aeroporto e alguns templos). Definitivamente não é uma das cidades mais baratas do Sudeste Asiático no que diz respeito à hospedagem, mas também não tinha valores exorbitantes (cerca de 130 reais a diária). Primeiro pesquisei Old Bagan, mas naquela localidade tem apenas uns 3 resorts caros. O hotel mais próximo era o Bagan Umbra Hotel. Li que ficava a uns 3km dos primeiros templos e conclui que seria possível acessá-los de bicicleta. 
O hotel tinha algumas avaliações negativas sobre o quarto standard, que escolhi. Acredito que tenha sido renovado, pois o banheiro era novo e grande, apenas sem cortina na área de banho. O quarto era limpo e tinha cama king, tv led, frigobar, ar-condicionado, wi-fi. É claro que existem outras instalações mais luxuosas no próprio hotel, mas custavam o dobro. As duas piscinas são ótimas para relaxar.

 

Após o café passei a me preocupar com o meu deslocamento. Fui até a recepção e perguntei se tinham bicicleta e a resposta foi "não". Quis saber se havia alguma excursão em grupo (tinha visto dois ônibus com dezenas de pessoas no estacionamento) e novamente ouvi uma resposta negativa. Mas como não existe tour? Restavam 2 opções: alugar uma e-bike (é uma scooter elétrica) ou um carro com motorista. Nunca andei de moto e não tenho habilitação, mas pagar um carro com motorista só pra mim seria absurdo (no Camboja estava em grupo e um carro para 4 pessoas saiu por 10 dólares), embora 35 dólares esteja dentro dos padrões turísticos. Aqui registro minha indignação com o atendimento frio da recepção, pois ao mencionar que nunca tinha dirigido uma motoneta, disse para atravessar a rua e testar naquela "locadora", sendo que o hotel possuía umas 40 motos! E tinha um staff de dezenas de pessoas. Custava perder 5 minutos para me instruir?

Atravessei a rua e disse pro rapaz que nunca tinha andando de moto e que há muitos anos não andava de bicicleta. Muita chance de dar errado! Ele foi muito gentil e segurou a moto para ver se eu me equilibrava, depois mostrou como ligar e acelerar. Os preços eram: 4.000 kyats a metade do dia e 7.000 kyats o dia inteiro. Pensei bem e optei pela metade do dia, se ainda estivesse viva. Não precisa apresentar qualquer documento. Saí com a moto e entrei no hotel para pegar o mapa. Existem diversas pessoas alugando esse tipo de moto elétrica (não precisa se preocupar com combustível) por toda a cidade. Os preços variam.

Embora a cidade seja conhecida pelos 2 mil templos, existe uma classificação distinta para cada construção. Pode ser templo, pagoda (pagode), stupa ou monastério. Ressalto ainda que alguns monumentos estavam fechados em razão do forte terremoto (6.8) que atingiu a cidade em agosto, causando danos estruturais nos edifícios.

O primeiro templo que conheci foi o "Hti-lo-min-lo" - o último desse estilo a ser construído na cidade por volta de 1208. O nome significa "bênçãos dos três mundos". Fica localizado entre Old Bagan e Nyaung-U. Tem 46 metros de altura e dois andares. Encontramos 4 Budas nos andares superiores e inferiores. Existem vestígios de murais e fragmentos de esculturas.

Estacionei a moto na entrada do templo até que um guarda (só vi guarda nesse templo) veio me mostrar onde poderia parar. Coloquei meu chinelo ao lado porta (não pode entrar com calçado nos templos, deve ter pernas e ombros cobertos) e comecei a explorar. Os templos possuem estátuas douradas de diversos tamanhos. 



Do lado de fora tinha muitas barracas com artesanatos e, por mais que ainda tenham uma cultura preservada, o assédio aos turistas existe. Uma moça simpática, que falava inglês perfeitamente, disse que eu estava cheirosa (não acredito que usem perfume por lá, pois é um lugar muito pobre). Agradeci e elogiei sua eloquência. Respondeu que aprendeu o idioma após a chegada dos turistas (sabia que no fim tentaria me vender algo). Levou-me ao topo do monastério que ficava próximo ao templo. Tirou foto. Em seguida foi me mostrar as peças de sua barraca. Até pensei em comprar, mas desisti ao ver os preços. Queria 10 dólares em qualquer objeto que compraria por 1 dólar na Tailândia. Agradeci e caminhei. 

 
Olha a pontinha do templo que foi quebrada pelo último terremoto

Parei para olhar algumas bonecas e acabei comprando uma para minha mãe e outra para minha sobrinha. Giovana tem bonecas de Bali, Camboja, Hungria, Tailândia, etc. Os preços não são tão atraentes como na vizinha Tailândia, mas negociei duas bonecas por 7.000 kyats (6,50 dólares), afinal eram feitas de madeira e tecido. Deve dar trabalho para confeccioná-las. No Brasil jamais encontraria algo pelo mesmo valor.
Reparem no rosto com a thanaka



No interior do templo fui parada por uma família para tirar fotos. Sempre que pediam eu retribuía e também registrava o momento. Enquanto caminhava na área externa fui parada por um grupo de rapazes, que depois disseram que era um prazer tirar uma foto comigo. Por algum momento me senti o centro das atenções. É uma prova que ainda se espantam com os estrangeiros.
Os homens de longyi

Li previamente que a cidade cobra uma taxa de 25 dólares (o valor subiu de 10 para 25 em pouco tempo) assim que o turista entra na cidade. Quem chega pela via aérea já paga no aeroporto. Cheguei de van e ninguém entrou no automóvel. Uma garota me parou e pediu o cartão "Bagan Archaeological Zone". Na minha frente um casal fazia um escândalo (risos), pois estavam ali há três dias e ninguém tinha pedido e agora teriam que pagar no último dia da viagem. Perguntei se poderia pegar no hotel, mas não adiantou, pois não sairia do local sem o cartão. Paguei os 25 mil kyats. O cartão é válido por 5 dias. Sinalizo que em nenhum outro templo tinha qualquer pessoa cobrando o tal documento! Tenho dúvidas se o dinheiro é utilizado na preservação do patrimônio, pois os monumentos parecem abandonados.


No caminho existem centenas de estupas, pagodas. Parava para registrar e muitas vezes estava sozinha, sem qualquer outro ser humano por perto. Alguns templos possuem a inscrição apenas em birmanês, na entrada, dificultando a localização no mapa. Passei pelo "That-buin-nyu", que foi atingido pelo terremoto, "Chatu-Mukha", "Ananda Pagoda". Fico fascinada pelas esculturas de Buda. 

O templo de Ananda é uma obra-prima da arquitetura Mon. Foi edificado em 1.105 d.C. e é um dos mais reverenciados em Bagan. Em 1975 houve um terremoto que causou graves danos na estrutura, no entanto, foi totalmente restaurado. Diz a lenda que o rei executou os arquitetos após sua construção para que o estilo fosse singular.





O Maha Bodhi Phaya foi construído entre 1211-1234 com o intuito de comemorar a iluminação de Buda. É um monumento diferente dos demais com formato em sino, pois há um bloco quadrangular que suporta a estrutura piramidal.
 

 
Como desvendar o nome do templo?

O Templo Mee Nyein Gone está localizado ao sul de Bagan e significa "colina onde o fogo se extingue". Dentro do salão há uma enorme imagem de Buda. As paredes são decoradas com pinturas florais.

Mee Nyein Gone

Resquícios de murais




Assim que cheguei no templo That-buin-nyu fui seguida por um menino, por volta dos 10 anos, oferecendo um livro ou postais. Agradeci e disse que não queria. Seguiu-me por todo o templo, me deixando irritada. Todos diziam que as pessoas eram sempre amáveis em Myanmar e aquela atitude não parecia com nenhum relato. No fim, quando tomou consciência que não compraria nada, disse "fuck you". A agressividade do pequeno parecia muito com o comportamento dos cambojanos nas proximidades de alguns templos, que xingavam e riam. Foi um fato isolado, no entanto, também pode sinalizar um futuro sombrio, já que a pobreza aliada à agressividade não pode gerar bons frutos.  

O That-buin-nyu é uma construção branca e imponente, que pode ser vista de longe. Em birmanês significa "onisciência do Buda". É preciso conhecer e ver plenamente. Foi construído entre 1113-1163 e é um dos primeiros com dois andares. Duas escadas dão acesso ao terraço de onde pode ter uma vista panorâmica de Bagan.

 


Continuei a percorrer as estradas de terra (a principal tem asfalto, mas com um desnível de uns 30 centímetros para a área não asfaltada) e novamente fui abordada por um menino. Esse ofereceu seus desenhos e livro, mas era muito dócil. Conversamos. Contou-me que colecionava notas de outros países e perguntou se teria alguma nota de real. Disse que não havia na minha mochila, mas no dia seguinte lembraria do pedido.

Sobre a questão da coleção de notas, vou ser cética. Uma blogueira contava a história de uma forma romântica, que um pintor disse que o maior sonho era colecionar notas de todos os países (quase chorei). No meu primeiro dia, efetivamente passeando pela cidade, ouvi a mesma história de vários meninos. É possível que alguma casa de câmbio compre essas notas. Perguntei se não tinha euro ou dólar na carteira. Balançou a cabeça negativamente e informou que ninguém tinha dado. Mostrou-me notas com valores baixos, que acentuou minha desconfiança. Prefiro acreditar que seja uma competição. Um álbum de figurinhas...

No caminho de Old Bagan, vi a placa que indicava o restaurante com a melhor avaliação no tripadvisor: The moon, be kind to animals. Resolvi seguir uma dieta vegetariana durante a viagem. O ambiente era simples, mas muito charmoso. O chão é de terra batida, tem umas sombrinhas típicas da região junto com as árvores. O menu é internacional, mas sempre vegetariano. Os preços eram ótimos. Solicitei um "Fresh spring roll" (existe o rolinho primavera fresco, feito com folha de arroz, além do mais conhecido, que é feito com uma massa de trigo e frito) com um suco de laranja. O fresh spring roll (muito comum no Vietnã) vinha com 3 molhos deliciosos: coco, tamarindo e pimenta. Após a refeição, me ofereceram uma deliciosa bala de tamarindo. Na mesa ao lado tinha um brasileiro, só soube após um guia local perguntar, pois tinha traços orientais (era filho de pai japonês). Estava com um amigo tailandês. Começamos a conversar, disse que morou 8 anos em Tóquio e estava há 4 em Bangkok, mas iria retornar, pois não se acostumou com a desordem tailandesa.  


 


Cogitei voltar e alugar a e-bike pelo resto do dia, por outro lado, fiquei com receio de ver muitos templos e ainda teria 2 dias inteiros. Entreguei a moto e fui para o hotel aproveitar a piscina. Fiquei na menor, pois a maior estava com incontáveis adolescentes pulando e queria sossego (coisa da idade!).

Giovaninha, a boneca da minha sobrinha. Pede pra carregá-la em várias viagens...

O hotel e seu templo particular, em segundo plano

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