Jean-Michel Basquiat: um paradoxo (in)constante


Capítulo 1
Introdução


Folheava um catálogo com as obras de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), quando fui tomada pela curiosidade. Comecei a me fazer algumas perguntas e cada vez mais queria entender seu processo de criação, sua origem, suas influências. Talvez o pasmo inicial não tenha nascido essencialmente da catarse causada por sua obra (o que em nenhum momento nega sua “qualidade”, da qual falarei adiante), mas em meus primeiros contatos com ela fui, aos poucos, percebendo sua multiplicidade. Lembro-me de um trabalho em especial, “In italian” (imagem 2), de 1983, que de imediato evidencia inúmeros aspectos presentes em sua linguagem visual e que adiante me levaria a questões sobre sua simbologia, o marketing em torno de seu trabalho, a retomada da pintura nos anos 80 ­— e a periodização e questionamentos sobre o pós-modernismo — as vertentes existentes naquele momento, o Neo-expressionismo, a Transvanguarda, a remanescência Pop, a condição de artista marginal, a rua, o multiculturalismo. Basquiat nos leva a diversos caminhos e vamos trilhando-os lentamente — o que me levou ao tema principal escolhido: o paradoxo, que é inerente a cada passo. A importância de pesquisá-lo é exatamente verificar como ele mixava todas essas influências, todo esse léxico, num posicionamento quase abrupto com o mundo. Em “In italian” (trabalho composto por dois painéis com técnica mista sobre tela, montada sobre madeira) já temos de início, a partir do título, uma relação com seu multiculturalismo, com a globalização artística presente em Basquiat. Nele vemos muitas palavras escritas, que fazem parte da influência do graffiti, da arte da rua, em seu vocabulário plástico. O símbolo da copyright está lá, recorrente em sua carreira, desde quando grafitava o metrô; encontramos também a palavra “crown”, a coroa, que tem para o artista grande significado —  evocava o desejo de poder e de glória. A cor explode em sua tela, com verde, misturado ao vermelho, preto, rosa, azul, branco, cinza — o que seria uma característica neo-expressionista, onde as cores “falam” por si só, havendo ainda a presença do romantismo, ao explicitar suas emoções, e da bad painting. Temos a volta da figuração pictórica dos anos 80. Temos também a representação do negro, que será um dos meios utilizados por ele para expressar seus questionamentos políticos em relação às questões raciais, sobre sua condição de artista negro descendente de latinos. “Blood”, “heart”, “sangre”, “corpus” e “teeth” estão escritos, mostrando seu interesse por questões anatômicas e relacionadas ao corpo humano, que também será comum em sua obra. Vemos o desenho de uma moeda (talvez um “dime”, já que temos ao lado escrito “ten cent”) com a inscrição presente no dinheiro norte-americano: “In God we trust”, decerto ironizando a relação religião-economia, onde a palavra “liberty” aparece riscada.
            A pintura de Basquiat reune palavras e desenhos (imagem 8). Existe uma articulação entre a arte das ruas, desenhos em quadrinho (imagem 9), símbolos populares, presença do figurativismo ao mesmo tempo em que propõe uma arte expressiva, quase visceral, como diria Van Gogh: “A cor exprime algo por si só”[1]. Escreve palavras, as risca, às vezes os traços parecem infantis, rudimentares, mas tudo muito bem orquestrado no plano pictórico, dos desenhos às cores utilizadas. Basquiat parece usar as cores instintivamente, pulsam em suas telas, entram em conflito (imagem 6). Algumas obras apresentam o espaço da tela completamente preenchidos (imagem 5), outras, apresentam a escassez de elementos (imagem 12).
            Observando os trabalhos de Basquiat podemos destacar a gestualidade presente em suas telas, seus traços trêmulos e inexatos variam com a agressividade gestual. O tratamento dado ao suporte é despreocupado de beleza formal, suas pinceladas apresentam grande atividade e variação, vão em todas as direções, e diversificando a espessura. A textura é dada pelas camadas de tinta, de cores contrastantes, que se sobrepõem, existe um colorismo impactante nas obras de Jean-Michel. As distorções das figuras são, por muitas vezes, dramáticas. A profundidade clássica, inexiste, não usa perspectiva, sombra ou qualquer elemento que atribua volume às suas formas, trabalha, essencialmente, na planalidade oferecida pelo espaço bidimensional pictórico.
            É interessante observar suas construções despreocupadas em formar “cenas coerentes”, nem sempre os elementos dialogam entre si, a composição é livre. Ao pintar e posteriormente “apagar” o desenho, ele transforma a figura em fundo novamente (imagem 7). Basquiat costumava dizer que ele apagava, riscava os elementos para que o espectador sentisse curiosidade em saber o que estava escrito ou desenhado, aumentaria a intensidade da observação de quem vê a obra — esse vir a ser, permite um diálogo com os trabalhos de Christo, em relação à atitude (já que trabalharam com linguagens distintas), que estimulava a percepção do olhar através do ocultamento.
            Basquiat declarava-se “escritor”[2]. Dizia que escrevia muitas coisas, por vezes, sem pensar. Isso pode ser verificado em seus trabalhos, embora fosse mais comum em seus graffitis, ele trouxe para pintura as mesmas características. Essa forma de brainstorming: escrever sem pensar, utilização de fragmentos sem nexo, remete de alguma forma à poesia dadá, já que seus poetas escolhiam aleatoriamente as palavras que seriam utilizadas na composição das frases, e ainda, ao processo do automatismo psíquico surrealista.
            Um dos focos de interesse de Basquiat eram os hieróglifos[3]. Podemos então fazer uma leitura de suas obras a partir do seu interesse pelo grafismo, pela escrita dos antigos egípcios, quando ele abstrai do real e transforma o objeto em símbolo, de maneira expressiva e que, não necessariamente deveria realizar alguma forma de comunicação — seu interesse parece ser gráfico. Quando Basquiat une o desenho às palavras, essa associação pode ser melhor compreendida.
Outro foco é o tema Lázaro — o artista brasileiro, contemporâneo de Basquiat, Leonilson, também trabalhou com essa temática em sua instalação “Item Lázaro”. Lázaro representa o milagre da ressurreição (na visão do cristianismo), provavelmente um interesse inerente aos que se autodestroem, uma possibilidade de voltar a viver. Existe ainda, uma parábola espírita que diz que Lázaro representa os excluídos da sociedade terrena, aqueles que a sociedade despreza.
            Irônicas, expressivas, espontâneas, sentimentais — são alguns dos adjetivos que podemos utilizar para descrever as obras de Jean-Michel Basquiat. 


[1] MICHELI, Mario de. As vanguardas artísticas. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p.20.
[2] Ele diz ser escritor no filme Downtown 81.
[3] Em Downtown 81, Basquiat diz interessar-se por muitas coisas, entre elas, os hieróglifos.
 
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