Lixo Extraordinário


Lixo Extraordinário


Uma grande surpresa no Oscar 2011 foi a categoria “Documentário”, com dois filmes sobre artistas visuais (algo absolutamente incomum). Enquanto “Exit through the gift shop”, dirigido por Banksy (artista inglês com identidade desconhecida, famoso por suas intervenções urbanas), trabalha com o escárnio absoluto sobre o mercado de arte, “Lixo extraordinário” tenta promover a inclusão social através da arte.

A direção do documentário, filmado entre 2007 e 2009, é da inglesa Lucy Walker, com codireção de João Jardim e Karen Harley (Karen dirigiu um vídeo para a série Rio Arte Vídeo/Arte digno de menção, pela sensibilidade demonstrada, sobre o também artista, já falecido, Leonilson: “Com o oceano inteiro para nadar”).

Numa extensão de propósitos, a arte pode divertir, sem maiores discussões teóricas, bem como pode questionar a sua utilidade prática, impulsionando o embate com as obras e meditando sobre seu desígnio.

Vik Muniz é hoje o artista brasileiro com maior projeção internacional, que facilita a visibilidade de suas obras. Mas também tem reconhecimento pátrio, com trabalhos de grande difusão, como a capa do álbum dos “Tribalistas” ou a abertura da novela “Passione”.

Waste land, como foi intitulado em inglês, apresenta o trabalho do artista visual Vik Muniz com os catadores de lixo de Jardim Gramacho, bairro de Duque de Caxias no Rio de Janeiro. Logo no início do filme, Vik conta que sua primeira experiência artística reflexiva, no que tange às questões sociais, foi realizada com crianças de canaviais das ilhas caribenhas de São Cristóvão.

A fotografia  é o resultado final dos trabalhos de Vik Muniz, no entanto, existe um processo anterior, de onde surgem as imagens, realizadas com materiais ordinários, comuns, cotidianos, tais como, macarrão, pneus, confetes, etc. E a série apresentada no documentário não é diferente. O Lixo era o mote para o novo projeto, "Pictures of Garbage", e, segundo o próprio, o papel da arte é transformar, seja um material ou a vida de um grupo de pessoas.

Tião, dentre outros personagens, é um rapaz que sonhou e organizou uma associação de catadores, mas é confrontado pelas agruras do mundo. Espanta-nos ver um dos catadores sugerir a releitura do famoso quadro de Jaques-Louis David “A morte de Marat” - tornando-se emblemática e capa do documentário.

O longa mostra uma pobreza que, tanto pode incomodar, como comover. Me questionei sobre a autopromoção do Vik Muniz, se realmente o fato de reverter o valor da venda das fotografias aos empregados da associação de catadores de materiais recicláveis do Jardim Gramacho torna seu trabalho despreocupado de retorno financeiro. Sei que não. E não importa.

Extraordinário pode ser definido como, segundo o “Houaiss”, notável, excepcional, fabuloso, inacreditável. Sim, são adjetivos que traduzem o documentário sobre o trabalho de Vik Muniz, as incertezas, são, de fato, secundárias.

O choque de realidade é incrível. Ver Tião no leilão em Londres, se emocionando ao saber que a fotografia valia 28 mil libras (equivalente a R$73.000,00) ou visitando uma exposição de arte contemporânea só revela que as pessoas precisam ser descobertas e trabalho humanitário pode revelá-las.

A importância de “Lixo extraordinário”, para o mundo cinematográfico, é trazer as discussões artísticas para a massa. Pois é indiscutível que os trabalhos no campo das artes visuais ficam muitas vezes restritos aos frequentadores de galerias, museus e centros culturais, que é um público ínfimo se comparado aos consumidores de filmes. É claro que a película esteve relegada às poucas salas que projetam filmes classificados como alternativos, no entanto, um grande passo já foi dado.


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